As mudanças no clima são uma realidade e o setor do café segue se preparando para lidar com esta nova realidade. Para avançar no tema, o Departamento do Café da Sociedade Rural Brasileira (SRB) realizou um debate reunindo especialistas do setor.
O encontro teve como pauta “Variabilidade climática: como (re)agir para ser resiliente?” e abordou as estratégias tecnológicas, fisiológicas e de manejo prático para enfrentar a instabilidade do clima e garantir a resiliência e produtividade na cafeicultura brasileira.
O presidente da SRB Sérgio Bortolozzo e Carlos Brando, que lidera o Departamento de Café da entidade, destacaram a tradição do grupo e os desafios enfrentados na colheita recente devido a chuvas irregulares e perda de qualidade. Também ressaltaram as iniciativas em andamento para a comemoração dos 300 anos da chegada do café ao Brasil.
Um dos painelistas foi Guilherme Vinícius Teixeira, representando a Cooxupé, maior cooperativa de café do País, lembrou que a fenologia do cafeeiro se estende por 2 anos (um ano vegetativo e um reprodutivo), de modo que os eventos meteorológicos acumulados ao longo desse período determinam o resultado da safra. Também detalhou a alternância entre ciclos de El Niño (com o evento recente atingindo intensidade forte com anomalia de 1,8 °C no oceano) e o La Niña, destacando marcos como a geada severa de 2021 e os episódios de seca e granizo em 2022/2023.
Em relação à safra 2026, Teixeira indicou condições medianas no desenvolvimento, mas com entraves na maturação e colheita devido ao excesso de chuvas e alta umidade.
José Donizeti Alves, da UFLA, explicou como os estresses abióticos afetam o metabolismo do cafeeiro. Segundo ele, em condições normais, a planta produz energia para vegetar e produzir. Sob estresse climático (térmico/hídrico), o cafeeiro desvia até 50% da sua energia para combater o estresse oxidativo e as espécies reativas de oxigênio (EROS) que causam escaldaduras.
Em relação aos impactos do El Niño, Donizeti Alves pontuou que as altas temperaturas durante a florada reduzem a taxa de fecundação para menos de 50%, além de provocarem abortamento de frutos e queda na fase de chumbinho. O especialista recomendou como manejo preventivo que seja feita a proteção do enfolhamento antes da florada por meio de nutrição equilibrada, irrigação e uso de bioestimulantes, aminoácidos e hormônios para manter a reserva energética da lavoura.
Já o consultor Elidio Torezani apresentou dados técnicos sobre o manejo hídrico na região de café Conilon/Robusta (Norte do ES e Sul da BA), onde prevalecem solos de tabuleiro costeiro adensados. Ele recomendou o uso de tensiômetros e extratores de solução do solo para determinar o momento exato de irrigar e fertilizar, evitando a saturação e a lixiviação de nutrientes.
A reunião contou também com a participação do cafeicultor Flávio Pereira de Mello. Ele descreveu práticas regenerativas adotadas na Fazenda Nova Aliança. Segundo o produtor, uma das prioridades é manter um “solo vivo”, aerado e com matéria orgânica, utilizando plantio em nível e lombadas nos carreadores para desacelerar a enxurrada e evitar erosão laminar.
Ele também utiliza insumos biológicos, reduzindo o uso de químicos e usando extratos vegetais para o equilíbrio fitossanitário. Pereira de Mello diz que, com essas práticas, vem mantendo uma produtividade média estabilizada em 39 a 40 sacas por hectare ao longo de 26 anos, mesmo sem uso de irrigação.
Assista a reunião completa no canal da SRB no YouTube.
Acesse neste link: https://youtu.be/Ucvljk3eF4s?si=L-Z_gxJMi88msokD





