Encruzilhada do agro

A verdade, é que falta uma estratégia de integração por parte do Estado para o agro brasileiro. E isso pode fazer o País perder o momento histórico em que há um chamamento pelas coisas que vêm da agricultura. Está na hora de efetivamente nos prepararmos para cumprirmos e tirarmos proveito desta missão.

Por Cesario Ramalho da Silva, produtor rural e presidente da Sociedade Rural Brasileira *

O agro brasileiro bateu no teto. O setor cresceu tanto em produtividade – 4,5% ao ano nas últimas duas décadas -, mas mesmo este enorme avanço está chegando ao seu limite. E isso acontece num momento crucial da história, em que o mundo conta com o Brasil como fornecedor de alimentos, energia renovável e fibras. A demanda do mercado doméstico só aumenta, assim como nos países emergentes, sem se esquecer, claro, de Estados Unidos, Europa e Japão, que apesar de saturados, são mercados de consumo constante, e que pagam mais.

Uma correlação de fatores pressiona o início de um novo ciclo de crescimento do agro. Primeiro, é que faltam terras agricultáveis. No Cerrado – principal região produtora de grãos do País - existem apenas mais 7 milhões de hectares disponíveis dentro das propriedades rurais. O restante está ocupado.

Muito se fala sobre as pastagens degradadas, que podem ser incorporadas à agricultura. Os números não são exatos, mas situam-se em torno de 100 milhões de hectares. O problema é que o uso destas áreas passa pela disseminação de tecnologia. A expansão da integração-lavoura-pecuária-floresta é um grande trunfo, mas não basta. O tratamento de solos deteriorados custa, e muito.

Somada à questão da recuperação dos solos há também o desafio dos custos de acesso à tecnologia, cada vez mais caros. Mesmo a expectativa de avanço das segundas safras – principalmente do milho - passa, necessariamente, por levar tecnologia ao produtor rural, especialmente o da agricultura familiar e o médio. O produtor precisa de financiamentos com prazos mais extensos, que amortizem os investimentos.
 
Pesquisa e extensão rural

E aí, chegamos numa encruzilhada. Apesar de termos desenvolvido a maior agricultura tropical do mundo, o Brasil, agora, está ficando para trás em ciências agrárias. Uma defasagem tecnológica acentuada fará com que países, que antes não nos traziam riscos, passem a trazer.

Nosso maior expoente, patrimônio da pesquisa agrícola nacional, a Embrapa está em crise. Ícone da revolução tecnológica do agro brasileiro, a empresa perdeu terreno nos últimos tempos, como, por exemplo, na área de desenvolvimento de cultivares. Atualmente, cerca de 70% de novas variedades de soja, 60% de milho e 80% de algodão vêm de programas de melhoramento genético da iniciativa privada.

E além de perder ano a ano recursos, teve seu orçamento reduzido ainda mais recentemente, numa troca de verba governamental para financiar o seguro rural, outra, aliás, prioridade do agro. É a síndrome do cobertor curto do dinheiro público. Contudo, alimentamos a expectativa de dias melhores com a nova gestão da empresa.

Mas, mesmo se tivéssemos uma sequência de lançamento de novas tecnologias, o problema não estaria resolvido, afinal não existe extensão rural no Brasil. Hoje, o produtor, especialmente o pequeno e o médio, não conta com nenhum suporte público tecnológico. Porém, a sábia iniciativa da presidente Dilma de lançar um novo esforço de extensão rural foi muito bem-vinda.

Coordenação

Este vaivém de questões que são chave para o agro exige uma melhor integração institucional do ambiente político que envolve e impacta o setor.

Decisões-chave estão espalhadas por vários ministérios. Essa fragmentação gera políticas públicas conflitantes. Exemplos? O Ministério do Meio Ambiente diz uma coisa; o da Agricultura pensa outra em relação a questões ambientais. O etanol está sob o guarda-chuva de várias pastas, do Mapa, do Ministério das Minas e Energia, da Fazenda, e assim vai.

Ou ainda, ações de defesa sanitária, onde o Mapa traça uma estratégia de combate a doenças, de vacinação, mas os recursos não são liberados por outros ministérios.
A verdade, é que falta uma estratégia de integração por parte do Estado para o agro brasileiro. E isso pode fazer o País perder o momento histórico em que há um chamamento pelas coisas que vêm da agricultura. O mundo quer o que temos. Está na hora de efetivamente nos prepararmos para cumprirmos e tirarmos proveito desta missão.
   
* Artigo originalmente publicado na edição de Novembro da revista Agroanalysis/FGV

 
 

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