Mais do que aumentar o volume das safras, o desafio proeminente é encontrar modelos de distribuição compatíveis com os custos do produtor e o bolso do consumidor
* Cesário Ramalho da Silva é presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB)
A deficiente infraestrutura logística é um dos maiores obstáculos para que o Brasil se torne celeiro mundial na produção de alimentos. Mais do que aumentar o volume das safras, o desafio proeminente é encontrar modelos de distribuição compatíveis com os custos do produtor e o bolso do consumidor. Ao longo dos anos, o agronegócio brasileiro se interiorizou ainda mais, com a transformação de áreas impróprias ao cultivo em solos férteis.
Todavia, escoar a produção de regiões, como o Cerrado, por exemplo, para os portos é um processo, que a cada dia torna-se mais complicado financeiramente. O que falar então da Amazônia? Além da questão ambiental, produzir na região não é viável economicamente, justamente, pela distância e as péssimas condições de transporte.
A falta de armazéns é outro grave problema. Sem ter onde guardar a produção, o produtor é obrigado a vendê-la assim que colhe, ficando sujeito à tendência baixista dos preços nos períodos pós-colheita. Quem segura a produção sem ter onde estocá-la corre o risco da deterioração da qualidade do produto pelas más condições de armazenagem. Ou seja, o prejuízo é certo.
A realidade é que a ausência de infraestrutura tolhe a chance do produtor elaborar um planejamento de produção e comercialização, ou seja, do seu negócio como um todo. No caso dos portos, a dificuldade de atracamento para grandes navios graneleiros interfere na competitividade. Com a baixa dragagem da maioria dos terminais portuários do País, apenas navios de menor porte conseguem operar, dificultando o escoamento, já que a carga fica parada no porto. Isso tudo encarece os custos do processo, que, invariavelmente são repassados para o produtor, que tem dificuldades para repassá-los adiante.
Isso sem contar as estradas esburacadas, ferrovias inacabadas, hidrovias subutilizadas e a falta de interligação entre estes modais. Estudos mostram que o transporte rodoviário é o mais indicado para curtas distâncias. Mas no Brasil, a coisa, infelizmente, funciona de forma diferente. Um caminhão carregado de soja de Rondonópolis (MT) percorre dois mil quilômetros para chegar ao porto de Paranaguá. Além disso, como as pistas são ruins, a viagem demora mais, majorando gastos e obviamente o frete. Quem paga praticamente sozinho mais esta conta? O produtor, claro.
Pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) mostra que o Brasil precisa investir R$ 32 bilhões para recuperar todas as estradas, que estão em más condições de tráfego. Até agora o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) se mostrou pouco eficaz para corrigir essas mazelas. A agricultura tem pressa e a infraestrutura logística precisa desde anteontem de investimentos maciços.
* Artigo originalmente publicado na edição de dezembro de 2009 da revista Agroanalysis