Prejuízo à competitividade do agronegócio em razão do câmbio apreciado mais a superprodução mundial de algumas culturas, com destaque para a soja, e as naturais indefinições políticas e dos mercados em ano de eleições vão exigir cautela do produtor rural em 2010
* Cesário Ramalho da Silva é presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB)
O prejuízo à competitividade do agronegócio em razão do câmbio apreciado mais a superprodução mundial de algumas culturas, com destaque para a soja, e as naturais indefinições políticas e dos mercados em ano de eleições vão exigir cautela do produtor rural em 2010.
Como sabemos, o real excessivamente valorizado frente ao dólar encarece o produto brasileiro no exterior, dilapidando a renda do produtor rural. Em estudo divulgado no final do ano passado, a Sociedade Rural Brasileira mostrou que o real tinha obtido uma valorização superior a 30% em 2009. O euro, por sua vez, tinha registrado uma valorização próxima a 8% em relação à moeda norte-americana. A análise revelou também que o exportador brasileiro de soja, por exemplo, teve uma queda de rentabilidade de 24%.
O relatório destacou que os países em que a taxa de câmbio apresenta maior valorização do dólar em relação à moeda local tornam-se mais competitivos no comércio agrícola. Contudo, o trabalho ressalvou que para saúde da economia, o ideal é que a cotação do dólar não seja nem tão alta, nem tão baixa.
O fato é que o câmbio torna-se tão importante para o desempenho das exportações e da economia brasileira porque nas questões estruturais, as coisas estão péssimas, especialmente, na infraestrutura logística. Isso sem contar outros entraves, como a carga tributária asfixiante, que infla o chamado "Custo Brasil". Com tudo isso, a conta simplesmente não fecha para o produtor.
Na parte da produção, caso se concretize a estimativa de uma supersafra mundial de soja (Brasil, Argentina e Estados Unidos), as cotações da oleaginosa se deteriorarão na Bolsa de Chicago, deixando o horizonte ainda mais nebuloso.
Avalio que o sojicultor terá prejuízo na safra 2009/2010. Em março, quando o produtor for vender a soja, ela deverá estar valendo por volta de R$ 31 a saca, usando como referência o preço médio de dezembro do ano passado. Hoje, o hectare de soja custa R$ 1,6 mil, ou seja, para equiparar a produção seria necessário que ele vendesse cerca de 40 sacas, cada uma valendo R$ 40 e isso não irá acontecer.
Este cenário de perda de receita poderá impactar negativamnte também no endividamento rural. Sem ter como pagar, o produtor vai ter que renegociar a dívida mais uma vez. O produtor está cansado disso. O Brasil precisa, com urgência, de uma política de Estado para agricultura, que proteja o segmento. Massificar o seguro rural é um investimento mais inteligente do que anualmente ter que ficar lidando com a problemática da dívida agrícola.
Se não bastassem os desafios estruturais e conjunturais, 2010 é ano de eleições, situação que por si só, já provoca certo nervosismo, engaveta projetos, coloca todos na defensiva, desenhando um quadro que pede prudência. É natural.
Falaremos muito sobre eleições neste nosso encontro mensal. Como recado inicial, é importante que o produtor conheça os candidatos de sua região, que tenham identidade com o setor rural. Para viabilizarmos políticas públicas favoráveis ao agronegócio, precisamos eleger representantes competentes e ligados à agricultura e pecuária. Sem qualquer vínculo partidário, a Sociedade Rural Brasileira defende a bandeira do produto rural nacional.
Ao longo destes três anos, fizemos deste espaço um painel de críticas e principalmente de propostas para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil, impulsionado pelo agro. Com base neste material, iremos preparar um documento com o pensamento da Rural sobre o futuro do setor, que entregaremos aos candidatos. Convidamos o caro leitor a colaborar.
* Artigo originalmente publicado na edição de janeiro de 2010 da revista Agroanalysis