Entrar

Entrar

Usuário:

Senha:



Esqueceu a senha?
Registre-se agora.
 

A agricultura é a galinha dos ovos de ouro do País
Publicado em 21/01/2010

Em entrevista para o boletim "Monsanto em Campo", o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva, destaca as conquistas da agricultura brasileira e alerta para os atuais entraves do setor. "Precisamos ajustar as questões estruturais, como estradas, e o excesso de imposto."

Ramalho fala também sobre outros temas fundamentais como novas tecnologias, questão agrária e código florestal.



Da Redação

Confira abaixo a íntegra da entrevista do presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva, à edição de janeiro do boletim eletrônico "Monsanto em Campo".

_____________


Quais foram as principais mudanças no agronegócio ao longo dos últimos anos?

A agricultura continua a mesma, a vocação e o amor pela terra não mudaram. Ela é fator de integração no nosso País; é determinante para mantermos uma única língua. Além disso, é primordial para a geopolítica brasileira de ocupação e consolidação do Estado. Por outro lado, tivemos também evoluções fantásticas. Saímos de uma agricultura de clima temperado, que copiava a europeia, e descobrimos a agricultura tropical graças às pesquisas brasileiras, às universidades e aos institutos. Descobrimos o Brasil e mostramos ao mundo que podemos ser um país de sucesso, que cresce, enriquece e que recentemente inseriu 30 milhões de pessoas num contexto de consumo por meio da agropecuária.

E de que forma a SRB participou dessa evolução?

A Rural atuou em vários movimentos e momentos da história do Brasil. Tivemos, por exemplo, uma participação muito forte na questão da nova constituição brasileira, defendendo a democracia e as eleições diretas. Também nos antecipamos aos fatos e acontecimentos. Vimos, há algum tempo, que a agricultura não seria mais uma agricultura da terra e da enxada, mas sim que estaria inserida num contexto tecnológico. Sempre defendemos essa interação e integração, até mesmo porque a Rural foi fundada sobre essa base.

Hoje, trabalhamos pensando muito na classe média rural brasileira, pois são esses produtores que sustentam qualquer país, qualquer setor do mundo. Porém, toda a pessoa ou atividade que fala do setor rural é interessante para nós. Não defendemos a agricultura do rico ou do pobre; do pequeno, do médio ou do grande produtor. Defendemos a produção rural brasileira, desde um grão de soja ou milho, ou um quilo de carne, até milhões de cabeças de gado, milhões e bilhões de sementes ou grãos de qualquer uma das variedades que produzimos.

Interagir com outros setores também foi um legado da Rural, e esperamos reciprocidade na defesa do produtor brasileiro, pois a nossa agricultura é a galinha dos ovos de ouro do País. Além disso, sempre fomos “produtores” de lideranças. Diversas pessoas saíram daqui para ocupar cargos de destaque nos mais variados órgãos, secretarias, ministérios e autarquias.

Com toda a modernização do agronegócio, tecnologia é um dos focos da Rural?

Sem dúvida, agricultura é tecnologia. O desafio das novas tecnologias, como a biotecnologia, é muito grande, pois elas têm que trazer renda para o campo. Um agricultor no vermelho não pode cuidar do verde. Por isso, queremos interagir com empresas comprometidas com o produtor brasileiro, com pesquisas, com melhores produtos e que queiram agregar valor e aprimorar a agricultura nacional. Sempre busco apoio dos demais setores para que a agricultura tenha tranquilidade e paz para produzir.

A agricultura brasileira tem apresentado bons índices de produção e contribuído para os resultados do País. O que mais é preciso para melhorar esse setor?

O IBGE mostrou no último Censo que a agricultura brasileira se desenvolveu. A soja teve 86% de crescimento em 10 anos e o milho quase 50%. Não gosto de dividir o País em brasileiro A, B ou C. Somos todos um único Brasil, e o produtor rural de uma forma geral precisa ter mais apoio. Eles precisam de estradas e transporte para levar os produtos para as cidades e outros países. O agricultor brasileiro não pode plantar e não saber se vai ou não colher. Dependemos de fatores alheios à nossa vontade, então precisamos de um seguro rural. A agricultura em todo o mundo tem blindagem por meio de seguro, de preço, de subsídios.

Gosto sempre de ressaltar que a agricultura é uma só. Por isso, o País não pode mandar uma delegação, por exemplo, para a OMC ou para a União Europeia para defender um produto rural brasileiro específico, para defender o pequeno ou o grande.

Nesse cenário, qual o papel do pequeno produtor?

Nesse panorama, o pequeno agricultor é tão importante quanto o grande, seja no Paraná, em Santa Catarina ou outro Estado, seja produzindo aves, suínos ou tabaco.

O projeto Lupa da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo mostra uma redução no tamanho das propriedades de 73 para 63 hectares em 10 anos. Ou seja, o maior estado agrícola do País tem uma propriedade de 63 hectares de média.

O Censo Agropecuário do IBGE retratou pela primeira vez os pequenos produtores. Qual a importância disso?

A agricultura familiar é saudável. Só não podemos misturar agricultura familiar com assentamento. O agricultor familiar é o indivíduo com vocação, que nasce sabendo o que tem que fazer no campo, que vai adorar quando tiver acesso a uma semente que não deixa a lagarta prosperar.

Há muitos anos o Brasil tem sérios problemas com a distribuição de terras. Como a SRB encara esse problema?

O Brasil é um país com uma extensão territorial colossal, com espaços imensos a serem aproveitados. A pecuária está se intensificando e liberando as áreas de pastagens existentes para a agricultura. O setor sucroalcoleiro é um exemplo que vem crescendo sobre essas áreas.

Segundo técnicos, temos 90 milhões de hectares para aumentar a nossa produção e ajudar a alimentar os mais de 1 bilhão que passam fome. É preciso ter comprometimento para aumentar a produção a preços adequados, ao mesmo tempo elevar salários e renda das pessoas.

Precisamos, também, minimizar as questões da violência contra o direito de propriedade.

Quais são os principais desafios do agronegócio atualmente?

Um dos principais desafios é ajustar as questões estruturais, como estradas, e o excesso de imposto. Enquanto pagamos quase 40% de impostos, os EUA pagam 2%. E vendemos soja e carne onde os americanos, os argentinos também vendem e têm uma taxação muito menor.

Não podemos mais ter um custo de frete que onera o produtor rural e uma legislação trabalhista antiquada e superada que pune o agricultor, pois é inaplicável no setor. Não podemos colher e não ter onde guardar, ter apenas financiamentos de curto prazo.

Precisamos ter um programa de acesso à terra para aquele indivíduo com vocação, por meio de um banco rural ou de fomento. Se o brasileiro pode comprar um veículo em 100 meses, tem acesso ao programa Minha Casa, Sua Casa, por que ele não tem acesso à terra? Há regiões do País com uma classe média altamente capacitada para produzir e o governo tinha de investir nessas pessoas.

Como o setor rural pretende trabalhar sua imagem e fazer com que setores urbanos da opinião pública entendam as questões agrícolas?

O setor rural precisa se organizar melhor. A defesa do setor está um pouco diluída. Temos de preparar uma grande operação em defesa do agronegócio, fazer a sociedade brasileira entender que é preciso ter orgulho do campo. Hoje, quem derruba na Amazônia não é o produtor rural, e a sociedade precisa saber disso. Quem está lá é o grileiro, o ladrão de madeira.

Muitas lideranças rurais dizem que é preciso haver uma compensação para preservar os biomas. Qual é a posição da Rural?

Temos de conservar os biomas, seja o Pantanal, o Cerrado - região onde tanto produzimos -, a Amazônia, a Serra do Mar ou a Mata Atlântica. É preciso ter essa preocupação, pois se trata de um patrimônio brasileiro.

O produtor que preserva precisa ter uma remuneração pelos serviços ambientais prestados. É impossível ter uma fazenda com 20% ou 35% da área, no Cerrado, preservada por uma lei que não ajuda. A sociedade já aplica isso ao patrimônio histórico brasileiro. O museu do Ipiranga, na capital paulista, por exemplo, era uma casa e está preservada, o Estado paga. As fazendas do interior de São Paulo, da época do café, de 300, 400 anos atrás são tombadas pelo patrimônio público e têm uma verba que as mantêm. Não é exatamente o mesmo ponto, mas é um princípio de preservação. As questões de meio ambiente não são apenas do produtor rural, são da sociedade. O maior poluidor e devastador do Brasil não é o setor rural. Quem destrói o meio ambiente é o meio urbano.

Qual a proposta da SRB para o Código Florestal?

A proposta é mudar o código em primeiro lugar. O ambientalista não quer isso, lutou insanamente, mas é impossível. Não entendo essa radicalização de não querer rever uma lei de 1965. Uma lei da agricultura que era extrativa, de subsistência. Há 40 anos, o Brasil era importador de vários produtos. Hoje, só importamos trigo.

É impossível não termos uma legislação atualizada. É preciso construir uma lei aplicável. O que não pode é o maior player mundial da agricultura, a maior expectativa de produção de alimentos, a esperança do mundo para alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050, o Brasil, ter dos seus 5 milhões de produtores rurais, 3,5 milhões em situação ambiental inadequada, passíveis de multa. Isso está errado.

Luto por uma nova legislação que atenda o meio ambiente, a sociedade brasileira como um todo, e que traduza em lei aquilo que precisamos respeitar de fato.

Página de impressão amigável Enviar esta história par aum amigo Criar um arquvo PDF do artigo
 
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Canal de Negócios

Site melhor visualizado nos seguintes navegadores
Produzido por Rodrigo Lima