Em entrevista para revista Globo Rural, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva, alerta para o prejuízo do câmbio apreciado para a competitividade das exportações e conseqüentemente para renda do produtor.
Ramalho chama atenção também para expectativa de uma supersafra mundial de soja e analisa as oportunidades da carne bovina brasileira no mercado internacional. O presidente da SRB fala ainda de Código Florestal, biotecnologia e índice de produtividade. "A agricultura eficiente do país tem garantido a comida na mesa e foi fundamental para ajudar o Brasil a superar a crise econômica”, ressalta.
Da Redação
Confira abaixo a íntegra da entrevista do presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva, concedida ao jornalista Sebastião Nascimento e publicada na edição de dezembro de 2009 da revista "Globo Rural".
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O presidente da SRB não vê 2010 com otimismo. No caso da soja, principal item da pauta de exportações brasileiras, a expectativa de Cesário é que uma superoferta da Argentina, dos Estados Unidos e do Brasil deprima agressivamente os preços.
A carne bovina perdeu competitividade – a arroba tornou-se a mais cara do mundo, acima até da dos EUA, histórico campeão em custos.
Cesário Ramalho da Silva, 65 anos é produtor de grãos e pecuarista, além de filho, neto e bisneto de fazendeiros. A Sociedade Rural Brasileira é uma maratonista na defesa do agronegócio brasileiro. Da casa já saíram 4 ministros de estado, muitos secretários estaduais e colaboradores de órgãos governamentais.
Cesário é seu 24º presidente. Na entrevista à equipe de Globo Rural, ele fala ainda de mudanças no Código Florestal, transgenia e índice de produtividade e ressalta que a agricultura eficiente do país tem garantido a comida na mesa e foi fundamental para ajudar o Brasil a superar a crise econômica.
Globo Rural – A valorização do real em relação ao dólar vai prejudicar quanto e como, o agronegócio brasileiro?
Cesário Ramalho – É uma tragédia para o produtor rural. As exportações agropecuárias brasileiras, principalmente as de commodities, cujo fator preço é preponderante e para quem a taxa de câmbio é fundamental, vêm sofrendo perdas de competitividade e de rentabilidade. Veja o caso da soja. A Bolsa de Chicago paga hoje 10,60 dólares. Chicago tem um preço histórico de 7 dólares, ou seja, estamos praticamente 30% acima.
O agricultor ainda não se deu conta do problema porque tem todo seu tempo tomado pelo plantio. Ele está contente com o clima favorável, mas a gravidade do cenário só ficará evidente em março, tempo da colheita. No caso do boi está pior. A arroba custava aos importadores, no inicio de novembro, 44,53 dólares, valor superior aos 29,91 dólares da Argentina, aos 34,57 dólares do Uruguai, 38,62 dólares da Austrália e aos 43, 44 dólares dos EUA. É o boi mais caro do planeta. A arroba mais cara do mundo. Em consequência, o país tinha perdido 3 bilhões de reais com a receita de exportações de carne bovina até Outubro.
GR – E o IOF de 2% que o governo está cobrando sobre o capital que entra no país não aliviou nada?
Cesário Ramalho – Analistas como os irmãos Luiz Carlos Mendonça de Barros e José Roberto Mendonça de Barros, assim como o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, já declararam que acabou o efeito dos 2%. Nada adiantou. É urgente também melhorar a nossa estrutura logística. O país caminhou fortemente para o aumento da produção e a infraestrutura continua igual. Câmbio desfavorável, infraestrutura logística precária, deficiências na defesa sanitária, legislação trabalhista detalhista e conflitante com as particularidades do trabalho rural são vilões para o desempenho do agronegócio.
GR – Quer dizer que as expectativas não são radiantes para 2010? Pode haver superoferta e queda de preços?
Cesário Ramalho – Eu sempre cito o caso da soja que é a principal commodity brasileira e representa 10% da pauta de exportação. O pavor é de uma superoferta. Eu estive na Argentina há 40 dias e lá se prevê uma supersafra – 55 milhões de toneladas. A dos EUA, que já está na boca do armazém, deverá totalizar 85 milhões e a nossa 62 milhões de toneladas. Vem aí então uma superoferta, a não ser que surja um problema climático, o que não era previsto. E nós sempre tivemos o melhor preço do mundo. Estamos em 170 países, da Europa, da Ásia, do Oriente Médio, porque o produto brasileiro é barato e tem qualidade, graças à eficiência do homem do campo e ao nosso parque de pesquisa, como a Embrapa, o Iapar do Paraná o Biológico de São Paulo, a Esalq/USP e outras universidades.
GR – Há risco de o país perder o posto de maior exportador de carne e segundo maior de soja, entre outras posições de ranking dos vendedores internacionais?
Cesário Ramalho – O Brasil já perdeu competitividade, e o processo de valorização das taxas de câmbio reduz ainda mais a capacidade de inserção do país como um player de destaque no rearranjo econômico global – caso dos Brics. Isso preocupa, porque a Sociedade Rural não quer apagar incêndio. Gostamos de prevenir incêndio porque não somos bombeiros.
GR – E se o câmbio despencar para 1,40, 1,50 real? Há gente que sustenta isso.
Cesário Ramalho – É uma tragédia maior. O agronegócio ficará imensamente prejudicado. Mas acho que nossas críticas estão surtindo efeito. O presidente Lula mostra preocupação, pois é ciente da importância da agricultura. O Meirelles, do Banco Central, deu uma entrevista aventando a possibilidade de se criarem mecanismos para mudar uma série de coisas. Eles têm de se voltar para a agricultura, que foi fundamental na luta para o país se recuperar da crise econômica internacional.
GR – O que mais poderia ser feito?
Cesário Ramalho – Precisamos de investimentos no setor rural, da chegada de capitais para aumentar ainda mais a produtividade e a mão de obra. Eu dou um trabalho de exemplo positivo que é o Melhores Caminhos, aqui do Estado de S. Paulo, elaborado pelo secretário da Agricultura, João Sampaio. Não é asfaltamento, e sim um cascalhamento da estrada, a melhora de pontes, a vazão para as águas. Tem ajudado muito, baixado custos. O agricultor brasileiro fica contido diante da deficiência de infraestrutura. Você imagina quanto custa trazer a soja de Rondonópolis (MT) ao porto de Paranaguá? Escoar o algodão sul da Bahia?
GR – Vamos falar de meio ambiente. A Sociedade Rural Brasileira é a favor da revisão do Código Florestal?
Cesário Ramalho – O Código Florestal, datado de 1965 e remendado ao longo destes mais de 40 anos, não contempla as mudanças ocorridas na produção rural. Está obsoleto. Por isso, ele precisa ser alterado, para que efetivamente possa cumprir seu papel de conservação, sem barrar a produção e o desenvolvimento. Precisamos conservar a Floresta Amazônica. Mas é preciso respeitar as pessoas que lá vivem e a legislação tem de permitir a ocupação racional e o desenvolvimento sustentável da região. A desorganização fundiária tornou-se gatilho do desmatamento na Amazônia. Regularizar a posse das terras na região é fundamental. A SRB vem colhendo progressos depois que o governo e ambientalistas passaram a entender a necessidade de mudar a lei. Agora, temos de discutir no Congresso os aperfeiçoamentos necessários.
GR – E a questão dos índices de produtividade para demarcação de terras?
Cesário Ramalho – Eu acho que é uma injustiça. Mas a nossa entidade procura conversar, vai atrás do bom senso, do caminho do meio. Achamos que, no que toca à proposta de reajuste dos índices de produtividade, o mercado desapropria quem é improdutivo. Não é preciso uma lei. O índice tinha razão de ser quando a terra servia como poupança, patrimônio. A realidade mudou. A existência de índices oficiais de produtividade para a agropecuária é uma insensatez. Comércio, indústria e serviços não têm índices a cumprir. O livre mercado regula a produção e a produtividade, atrelando o desempenho à conjuntura de preços e custos. É um castigo para a agricultura ser taxada pela produtividade, sendo que nenhum outro setor da economia brasileira é. A área rural tem praticamente um terço do PIB, 37% da mão de obra e dá uma resposta de 200 bilhões de dólares de reserva.
GR – O senhor sempre disse que é preciso acabar com a ideologia que separa a agricultura familiar e a empresarial, pois o grande, o médio e o pequeno têm o seu papel no agronegócio.
Cesário Ramalho – Sem dúvida. O Brasil tem lugar para todos eles. Você acha que alguém vai reconhecer o peixe que provém do grande, do médio ou do pequeno produtor? Vai diferenciar a soja, a carne? O produtor é protagonista do agronegócio, que é um só. É necessário acabar com a ideologia de separar a agricultura em familiar e empresarial. Todos têm o seu papel. Pensar de forma diferente é negar o direito ao pequeno produtor de almeja crescer e tornar-se grande. Mas tem um porém: o acesso à terra deve ser facilitado somente para as pessoas vocacionadas.
GR – Qual é a posição da entidade frente às invasões de terra pelo MST?
Cesário Ramalho – É preciso vontade política. Acho que o presidente da República, que tem 80% de popularidade, deveria bater na mesa, impedir as invasões. Temos gente que produz há 40 anos, e o MST vai lá e invade. A propriedade rural não pode ser violada, tem de ser respeitada, seja ela de brasileiro, seja de estrangeiro. Mas eu acho que o MST, na questão fundiária, está saindo de cena. Uma pesquisa recente constatou que 80% da população é contra a ação do movimento.
GR – O senhor fala que o governo deveria investir em programas de financiamento voltados a promover o acesso à terra, em vez de insistir num modelo distributivista de terra, um fracasso segundo o senhor. Mas esta posição não é meio antiga? Não há como pensar em um novo cenário?
Cesário Ramalho – Mantemos a posição de que não adianta dar somente a terra. Terra dada hoje sai caro. Porque não tem um treinamento. Exemplo: a Emater, fundamental na extensão rural, acabou, e isso foi uma coisa muito ruim que aconteceu no Brasil.
GR – Para manter a mata em pé não é necessário ser pago?
Cesário Ramalho – Com certeza. O setor rural está descapitalizado, mostram isso as nossas dívidas, a falta de crescimento da agricultura neste ano, a redução de fertilizantes e adubos. O campo não tem uma rentabilidade que permita fazer uma APP. Sabe quanto custa uma APP? 10 mil reais o hectare. Então temos de pensar em recursos. Nós estamos pleiteando e vai caminhando bem essas propostas de pagamento por serviços ambientais prestados.
GR – Vamos à questão dos transgênicos. Pelo menos 55% da produção de milho plantada nesta safra é de transgênicos. Como o senhor vê isso?
Cesário Ramalho – Vejo como liberdade de o produtor escolher o caminho mais fácil e de menor custo. Nos EUA, 80% da produção é transgênica, e nós vamos evoluir na questão da produtividade em cima dessa biotecnologia. Eu estou muito satisfeito, afinal, quem não quer produzir mais no mesmo espaço e por um custo menor? A SRB sempre foi a favor da transgenia. O presidente Lula ajudou muito ao fazer a CTNBio – Comissão Técnica Nacional de Biossegurança trabalhar mais cientificamente e aprovar as variedades de transgênicos. Quero registrar que não tenho nada contra o plantio tradicional. Aliás, foi criado um mercado para o não-transgênico, e, no caso da soja, tem até ágio.
GR – A agricultura brasileira tem uma boa imagem, o produtor rural é respeitado, mas a impressão geral é que falta força política...
Cesário Ramalho – Esse é um problema sério do setor, já que nos comunicamos mal. Precisamos juntar as lideranças, as entidades nacionais e trabalhar juntos.
GR- O ano que vem é de eleição presidencial. O senhor já escolheu seu candidato entre os dois que parecem os mais prováveis, a ministra Dilma e o governador Serra?
Cesário Ramalho – É uma questão de programa. A agricultura precisa de programa. Não temos bandeira. O que não pode é continuar pagando 700 mil reais no Brasil por uma colheitadeira que custa 450 mil nos EUA. São 40% de impostos. Quem vai dar jeito nisso?